Em busca de um novo sonho

Tentando readequar sonhos, vou entrar de cabeça em busca de uma vaga no Mestrado da USP em Meios e Processos Audiovisuais da ECA. Para me ajudar nos estudos, vou registrar aqui resenhas feitas com base no material bibliográfico obrigatório que tenho que consumir até o dia 19 de setembro, quando farei a prova da 1ª fase. Como ainda estou em dúvida quanto ao projeto de pesquisa, até me decidir terei que estudar duas linhas de pesquisa: “Poéticas e Técnica” e “Cultura Audiovisual e Comunicação”. Serão dois livros e dois filmes por semana. Bora para o primeiro filme “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho.

“Ficção x Realidade”

Jogo de Cena (2008)

Oitenta e três mulheres atenderam um anúncio de jornal da produção do cineasta Eduardo Coutinho. A ideia é que elas contassem suas histórias de vida. Dessas, 23 foram selecionadas e filmadas e, por fim, uma última seleção as colocou no filme “Jogo de Cena”. Entrecortada a essas histórias, atrizes conhecidas como Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra e outras nem tanto como Mary Sheyla, do projeto Nós do Morro. 

Aparentemente simples e de fácil execução, o documentário se baseia exclusivamente nas histórias de vida dessas personagens. Fortes e dramáticas, mas que podem não ser reais. A ambiguidade do filme é o que encanta. As atrizes que não são conhecidas é o que surpreende, o que confunde, fazendo com que o espectador tente recapitular o que viu e mostre o quão verdadeira pode ser uma história mesmo não sendo.

Na edição, escolheram deixar escapar algumas angústias das próprias atrizes com a construção do personagem. Ou seja, um lacuna entre a pessoa e a atriz. O choro é uma discussão interna delas, porque, para Marília Pêra, por exemplo, o choro quando real e na frente das câmeras mostra fragilidade e, por isso, as pessoas tentam esconder. Mas o ator moderno, nas palavras dela, quer mostrar as lágrimas no vídeo. O que torna a cena irreal. Marília diz que mais emocionante é quando você segura o choro.

No entanto, atriz e não-atriz habitam o mesmo corpo e nem sempre isso é possível. Andréa Beltrão conta que tentava não chorar, porque a dona da história, Gisele, não chora quando conta do filho recém-nascido morto. Mas Andréa diz não conseguir esse autocontrole, que seria necessário ensaios e ensaios para tentar ser verdadeira e ao mesmo tempo não emotiva. Duas características que parecem complementares, impossível de separar.

O real com o ficcional, em entrevista para a Revista 2001, Coutinho diz que a verdade tanto das atrizes quanto das personagens está nas nuances, nos hiatos. Engraçado que no jornalismo usamos o termo “personagem” para as pessoas reais que contam histórias reais e ilustram uma realidade. E no teatro “personagem” são pessoas não reais em histórias não reais interpretadas por pessoas reais.

Democratizar ou censurar? Algumas divagações.

Uma das minhas reportagens é a Lei das Mídias, como já disse aqui, e ela se revelou uma pauta muito mais difícil do que eu imaginava. Hoje visitamos a redação do Clarín e percebemos a queda de braço entre o governo kirchnerismo e o maior conglomerado de comunicação do país. Essa polarização, não só dos meios de comunicação, mas também de toda a sociedade dificulta nossa entendimento como estrangeiros do nível de confiabilidade na imprensa Argentina.

Então, várias perguntas se acumulam. Como se informar de forma mais imparcial possível? Leio o Página/12 e o Clarín e tiro minhas próprias conclusões? Democratizar ou censurar? Ser pró ou contra ao escolher cada termo? Mas será que essa polarização, mesmo que em menor escala, também não existe no Brasil e em todos os meios de comunicação? E se não há dados oficiais confiáveis, em quem se basear?

Janaina Figueiredo, correspondente de O Globo, comentou pela manhã que a burocracia dos órgãos oficiais do governo argentino é muito maior do que no Brasil. Já para Felipe Gutierrez, o governo chega a ser antagônico com os jornalistas, mas que há uma comunicação propagandística e direta, o que facilita para conseguir informações oficiais.

Como disse Janaina: “Correspondente é um pedaço da redação no exterior”, então explicar para o leitor brasileiro a complexidade dessas questões políticas e econômicas do país é um desafio e tanto.

Felipe, que está no país há menos de três meses, disse que no início seus textos vinham e voltavam da redação várias vezes para correção, porque em poucos caracteres precisava contextualizar a dívida da Argentina, além de contar os fatos novos que surgem a cada dia. E a contextualização é exatamente minha maior preocupação com essa reportagem sobre a Lei das Mídias, porque há tantos pormenores que envolvem não só o mercado de monopólio da imprensa, mas também uma guerra política e econômica.

Caminito de turistas

Pelo menos para mim, o dia seria livre, porque as outras entrevistas que tenho são apenas na terça-feira. E apesar do cansaço, decidi aproveitar para turistar. Ontem, depois de toda aquela saga, fui forte e topei curtir a noite da cidade, fomos ao Brujas Madagascar, um restaurante/bar/balada, típico aqui de Buenos e pauta do Rafael Esteves inclusive. Como ele já tinha entrevistado e pesquisado sobre os locais, foi fácil escolher, mas as possibilidades são muitas no bairro boêmio Palermo.

Acordei cedo para ir ao Caminito, uma rua perto do porto de Buenos Aires conhecida por suas casas coloridas. Bem turística! O bairro La Boca é onde fica também a casa de um dos principais times de futebol do país, o Boca Júniors. Táxis e mais táxis com turistas chegavam a todo tempo ao estádio La Bombonera.

Mas o que mais me chamou atenção foram os souvenirs. No Caminito dá para comprar de xícara da Mafalda a santinho do Papa, passando pelas camisetas de futebol da Argentina, Boca Júnior e River Plate. E lógico muito doce de leite e alfajores. Com tantas compras, na hora de almoçarmos, cadê dinheiro? Nossos pesos não foram suficientes, a sorte que em quase todos os lugares aceitam dólares e reais e conseguimos pagar a conta. Ufa, achei que iríamos lavar pratos.

O lugar também respira tango, praticamente todos os restaurantes têm shows durante o almoço e outros dançarinos ficam nas ruas para tirar fotos. Eu, claro, não poderia deixar de levar fotos dessa tradição argentina. Mas não é somente lá, em San Telmo, outro bairro onde aos domingos acontece uma feira de antiguidades e artesanato, também tinha alguns casais dançando. Mas as apresentações tradicionais ocorrem nos cafés.

Inaugurado em 1858, o Café Tortoni é o mais antigo da cidade e tem apresentações de tango todas as noites. Perfeita escolha para um domingo de turista e, além disso, fui acompanhar a Laura Cimpone, que irá escrever sobre a vida por trás das cortinas do tango argentino. Quem são esses que encantam toda a cidade. E fiquei mais do que encantada, a emoção passada pela expressão dos bailarinos, a voz forte de Nora Bilous e os músicos que não apenas a acompanham, mas são um deleite a parte. É clichê? É turístico demais? Sim, mas esqueça esses preconceitos e deixe se levar, será emocionante. E para fechar esse domingo, deixo para vocês o tango Caminito, que inspirou a rua, de Juan de Dios Filiberto.

 

Meus caminhos por Buenos Aires

O texto de hoje poderia ter vários focos, porque o dia foi intenso e pela primeira vez andei sozinha por Buenos Aires e quando digo Buenos Aires, quero dizer além dos limites da capital federal. Estive em San Miguel, um pouco mais de 40 km do centro de Buenos Aires. Lá, Pedro Moreira, um senhor de 78 anos pertencente ao povo indígena Quechua Aymara, mantém a Biblioteca Inti-Huasi para preservar a história dos povos originários.

Mas antes disso, fui também ao bairro Almagro, sul de Buenos Aires tentar falar com os responsáveis pela rádio comunitária La Tribu e da Barricada TV. Tive sucesso apenas na primeira, mas valeu para conhecer a região e se familiarizar com o local e hoje, principalmente, conhecer a estrutura do transporte público de toda Buenos Aires. Para quem está no centro, andar a pé é uma das melhores opções, mas para bairros mais distantes e outras províncias o melhor é usar o Metrô, que se chama Subte, e o Trem, que se chama Trene mesmo.

A rede de metrô aqui tem 6 linhas, nas mesmas cores das de São Paulo praticamente. Hoje usei duas linhas, para ir até Almagro a Linha B – Vermelha, que segue toda a Avenida Corriente. E depois na volta fiz uma transferência gratuita para a Linha C – Azul, que nos leva até as estações de trem da cidade, no bairro Retiro. A viaje de metrô custa 5 pesos.

Ao contrário do Brasil, as estações de trens ficam separadas por destino, uma ao lado da outra, mas cada uma tem sua própria entrada e bilheteria. Assim que sai da estação Retiro do metrô, a primeira estação de trem é a Mitre, depois vem a Belgrano e por último a San Martín. O terminal de ônibus intermunicipais também fica no mesmo lugar, logo depois da estação San Matín. A passagem varia, mas no meu caso que peguei a San Matín para São Miguel paguei 6 pesos.

Quer dizer, paguei só na volta, porque olhem só a situação. Na ida, a atendente da bilheteria disse que não havia passagem. O que pensar? Não tem mais passagem para essa viagem e vai ter para outra. A realidade? Não entendi nada do espanhol dela e fui perguntar para um jornaleiro. Quando eu disse que não havia passagem, ele disse: Entonces vá! Indicando a plataforma e quando vi umas dezenas de pessoas correndo para embarcar no trem. O que fiz? Corri também. Aqui aprendi que observação e adaptação é o melhor jeito de não parecer tão turista e vunerável.

Lá dentro percebi que todas as passagens tinham sido vendidas mesmo, os trens aqui são gigantes e com muitos lugares, todos cheios e minha viagem era de 1h. Mas, assim como na minha linha lá de Mauá da CPTM, por sorte, em menos de quatro estações vagou um lugar para curtir a vista. E que vista! Só não curti mais, porque o medo do desconhecido estava me consumindo. Estava tentando me camuflar, fazendo com que se parecesse turista, pelo menos que fosse uma turista argentina.

Uma hora depois e eu ainda tinha um ônibus para pegar e chegar à biblioteca. Os ônibus aqui só aceitam o Bilhete Único, que se chama Sube, ou moedas e troco é algo raro de se ver. Com o peso desvalorizado, as notas altas são a assombração dos vendedores. Mas felizmente, achei uma senhora simpática dona de um Kiosco, bombonieres comuns aqui na Argentina, que trocou meus 10 pesos por moedas. Outro detalhe do ônibus é que você paga por trecho percorrido, então assim que entra diz aonde irá descer para o motorista, ele calcula e te fala quanto tem que pagar. Com isso, ele já me ajudou onde eu teria que descer.

E depois de todo esse caminho, após perguntar indicações sobre a rua que tinha que ir, eis que não há nem asfalto no bairro. A expressão “sujar os sapatos”, que tenho repetido aqui deixou de ser apenas metáfora. E fui para lá, contei cuidadosamente as casas, voltei para cá, perguntei de novo e de novo e de novo, até que a terceira mulher que eu abordava na rua, Valéria, uma santa, me levou até o destino. Pedro Moreira foi minha primeira entrevista em Buenos Aires e não poderia ter sido melhor. Andar sozinha por uma cidade desconhecida, utilizar de todos os transportes públicos disponíveis e sair revigorada depois de um dia cansativo, com histórias em mãos e muitas outras idéias na mente.

#Dica: Nesse site dá para você calcular quais transportes públicos precisa pegar de um ponto a outro. É bem bacana e útil: http://www.viaja-facil.com/

 

Um primeiro dia e tanto

Apesar de termos chegado na quinta-feira a noite aqui em Buenos Aires, os trabalhos começaram mesmo hoje, ou ontem, ou não sei mais, porque para nós o dia rendeu e ainda não acabou.

Planejada, a cidade é feita para andar, ruas planas e quarteirões de 100 em 100 marcam a direção de todas as pessoas que circulam, muitos a pé, mas também pelos ônibus antigos e carros que engarrafam as ruas no mesmo estilo de São Paulo (sem exageros).

Logo pela manhã, com um frio de 9°, nosso grupo saiu para encontrar o correspondente Alejandro Rebossio do El País – com mais de 400 mil tiragens por dia, o que representa a maior tiragem da Espanha. O encontramos no escritório do grupo Prisa de comunicação há mais ou menos 10 quadras do nosso hotel. Corremos, porque erramos o lado do mapa, mas depois de nos localizarmos melhor e com ajuda dos, sim, simpáticos argentinos, conseguimos chegar ao nosso destino.

Conversa solta, duas horas foram pouco para o tanto de perguntas que tínhamos. Com as pautas já definidas, foi um bombardeio para saber o contexto de nossos temas, que só quem vive aqui consegue passar com tanta precisão. Economia, esporte, ditadura, indígenas, leis das mídias… Todas as pautas na mesa!

O tour que tivemos com o historiador Daniel Lucero durante a tarde foi um complemento ao bate-papo com Rebossio. Tudo o que estava apenas nos livros e nos jornais se tornou realidade para nós. A busca por justiça pelas famílias das vítimas do atentado à comunidade judaica há 20 anos que matou 85 pessoas chegou próximo a nós. O assunto não sai do noticiário e hoje teve manifestações das famílias, um deles na Plaza de Mayo, onde estivemos.

Inclusive, o local é um marco na história Argentina, porque é lá que até hoje ocorre a marcha das mães que tiveram seus filhos desaparecidos durante a última ditadura militar. Uma pressão em frente à Casa Rosada, sede do governo, para que, mais uma vez, haja justiça.

Passamos também pela Catedral, que guarda o corpo de San Martín, que junto com Bolívar, foi responsável pela libertação da América hispânica. E pelo Memorial de Evita Perón, para entendermos um pouco sobre o movimento Peronista. E digo um pouco, porque acredito que só sendo argentino para saber o quanto o movimento influencia na vida social e política do povo.

E mais de 2 mil caracteres depois, creio que já passei do limite. Foi um dia cheio, como disse, mas as expectativas foram se cumprindo e, melhor, se superando a cada minuto. Conhecendo gente e histórias encantadoras, que espero sejamos capazes de passar todo esse sentimento para o coração de vocês leitores.

Hasta mañana ou hoy, no se más. Em portunhol, claro!

Let the games begin…

Às 17h55 embarcamos para Buenos Aires já com pautas e ideias nas mãos. Há um pouco mais de um mês, quando definimos nossas pautas em reunião com o jornalista Clóvis Rossi e tivemos várias dicas do editor-chefe Fábio Zanini, não imaginávamos que esse tempo passaria tão depressa.

Nesse período, alguns reformularam os olhares da pauta, outros a mudaram completamente, mas tenho certeza que todos agora estão escutando o tic-tac do relógio. Uma semana parece pouco para desenvolver as reportagens que propusemos. Mas essa é a ideia, tornar a experiência como enviado especial a mais real possível.

Serei responsável por duas reportagens, uma sobre os indígenas que ainda vivem em Buenos Aires, a luta pelos direitos de terra e sobrevivência, além de como manter a cultura viva. E outra sobre a Ley dos Medios, que controla ou democratiza, dependendo do ponto de vista, os meios de comunicação na Argentina. Irei buscar como de fato a lei afeta a vida dos hermanos e fazer um paralelo com o Brasil.

E essas são apenas as minhas, ainda temos futebol (a bola da vez, com o perdão do trocadilho), arte, história, comportamento… Como preparação, li muito, agendei algumas entrevistas, disparei uma centena de e-mails, assim como meus colegas de aventura, mas só saberemos como será quando formos sujar os sapatos e escrevermos essas histórias.

E já está pensando comigo, como é que vocês vão dar conta de tudo isso? Pois é, não para por aí, ainda teremos bate-papo com Alejando Rebossio, do El País, Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo, Janaína Figueiredo, de O Globo e uma visita à redação do Clarín. Que na verdade será o momento para sugarmos uma parte dessa experiência e aplicarmos em nossas entrevistas e texto final.

Ufa, haja trabalho! Hora de arregaçar as mangas, mas não muito porque o frio está de 12°.

Ah, e dá para acompanhar tudo pelo Twitter @jorsemfronteira 
Nos vemos em Buenos Aires!

Um país, vários olhares

Jornalismo Sem Fronteiras

Reunião de Pauta com Clóvis Rossi

Podem me julgar, mas daqui um pouco mais de um mês saio de férias e o que farei nesse período? Jornalistar. Pois é, amor é assim, não dá para desgrudar, nem tão pouco explicar. No dia 17 de julho embarco na minha primeira viagem internacional para Buenos Aires, Argentina, com um grupo de jornalistas e futuros jornalistas para produzirmos reportagens e sabermos um pouco como é ser um enviado especial.

Mesmo já unidos pelas redes sociais, a timidez do grupo só ficou de lado ontem quando nos encontramos pela primeira vez. Após as apresentações e muitos cafés para aguentar uma manhã de sábado típica paulistana, tivemos um bate-papo com Fábio Zanini, editor do caderno Mundo da Folha de S.Paulo, e uma reunião de pauta com o colunista Clóvis Rossi.

O resultado foi muito aprendizado e um gás para começarmos a tocar nossas reportagens. Por aqui, vou contando um pouco de como será essa experiência. Hasta luego!

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