Selfies solitárias no metrô

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Foto: Silke Remmery

Domingo de verão, sai para uma visita a trabalho na Praça da Kantuta. Apesar da região não ser nova pra mim, sempre me impressiona a quantidade de pessoas ao redor da quadra de futebol presas em seus celulares. Esse é um dos locais de funcionamento do Wifi Livre da Prefeitura de São Paulo. Ficam todos vidrados nas suas telinhas luminosas.

Na volta, estava subindo as escadas na estação Paraíso, quando ao meu lado no sentido oposto, um rapaz de óculos escuro tirava uma selfie. Sozinho, na escada rolante, tirando uma foto de si próprio. Enquanto ainda processava aquela imagem, mais um tirava selfie na ponta da escada. Estamos doentes?

Sim, eu estou! Apesar de praticamente esquecer do celular quando estou com meus amigos ou familiares, sou praticamente consumida por esse aparelhinho quando estou sozinha. Tenho a necessidade de checar as mensagens de minuto a minuto, quando estou na sala ou na cozinha, fico olhando constantemente o aplicativo do e-mail. E todo esse tempo vai escorrendo para um ralo fétido e escuro de onde não consigo sair.

Neste momento, eu queria estar lendo um livro, mas arranjei a desculpa do blog para pegar o celular da bolsa e digitar esse texto. Era urgente? Não! Eu poderia fazê-lo em outra hora? Sim. Eu deixaria de escrever esse texto porque estaria perdendo mais tempo no celular em outro momento? Muito provável!

É desesperador e a consciência de que estou procrastinando com o celular na mão não mitiga em nada essa ansiedade. Se os dois rapazes tirando selfies no Metrô me vissem, também seria passível de dó. E muita!

Os melhores de 2016

Todos os anos, antes de listar tudo o que desejo para 2017, paro para analisar e agradecer tudo o que rolou neste ano. Não só fazer um check list das metas de 2016, mas como diz Oswaldo Montenegro: “Faça uma lista dos sonhos que tinha…Quantos você desistiu de sonhar!” A intenção deste texto é eleger os melhores livros, filmes, séries, álbuns e viagens que degustei ao longo deste ano. E, claro, espero dicas para minha lista de 2017!

Livros

O Sol é Para Todos – Harper Lee

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Ainda era 2015, quando a minha querida amiga Isabella Lubrano do canal Ler Antes de Morrer já havia me convencido que o livro da Harper Lee era mais do que necessário e que eu precisava correr porque a continuação, engavetada por décadas, seria lançada logo logo.

Acabei esquecendo, mas com a morte da autora em fevereiro deste ano e as mil teorias da conspiração, não tinha como ignorar por mais tempo. O racismo é o tema central – poderia ser mais atual? – e é tratado de uma forma bem sutil, pelos olhos de uma criança. Não é a toa que é considerado um clássico norte-americano!

“Go Set a Watchman” é a continuação e ainda não consegui terminar (criei o péssimo hábito de ler mais que um livro por vez, o que aumentou meu tempo de leitura). Mas, com certeza, eu colocaria o segundo livro na lista dos melhores também.

Crônicas de uma namorada – Zélia Gattai

Apesar de fã de Jorge Amado, eu não conhecia a vida e obra de sua esposa Zélia Gattai. “Crônicas de uma namorada” é o único livro de ficção dessa paulista naturalizada baiana. Quero ainda ler os outros livros, em que ela conta as viagens com Jorge Amado ao longo da vida. Leve, boa escrita, perfeito para uma leitura de verão.

A insustentável leveza do ser – Milan Kundera

Não é um livro fácil! Na verdade, é um livro simples, a história de um casal medíocre, fazendo coisas medíocres. Mas, lemos em busca das entrelinhas, do que Kundera considera ser leve ou leve ser, e aí, meu amigo, fica complicado. As brigas, os descompassos, a solidão, ah a solidão, tudo isso vai mexendo com a gente profundamente. É um livro para ler com calma e, talvez, ser repetido. Acho que vou colocá-lo na minha lista de 2017!

Álbuns

Barulinho Bom: Uma Viagem Musical – Marisa Monte

O álbum é 1996, mas viciei nele este ano. Duplo, dá para uma viagem inteira e combina muito com qualquer situação. É dançante, impossível não mexer o corpinho para lá e para cá enquanto toca. Vale a pena!

Agradece – Marina Peralta

Com apenas 23 anos, Marina Peralta veio do Mato Grosso do Sul e já está cantando por aí nos circuitos de reggae e fora dele também. A voz é gostosa, adoro o ritmo, mas o que me surpreende mesmo são as letras. Feministaça! Ganhou muito meu coração ❤

Os afro-sambas – Baden Powell e Vinícius de Moraes

Lançado em 1966, eu também já escutava, mas esse ano achei o disco original (físico mesmo!) e não consegui mais parar de escutar. É poderoso demais, me remete a muita coisa boa e, claro, não tem como ficar parado.

Filmes

Beasts of no Nation

Um filme Netflix impressionante! Conta a história do pequeno Agu, uma criança que perde a família para a guerra civil em uma país africano não especificado (mas que nos lembra muito a guerra do Congo), e é transformado em força do exército rebelde. Precisa ter estômago, mas é de extrema importância perceber como a mente dessas crianças são torturadas e corrompidas ao longo dos anos, transformados em verdadeiros monstros.

O filho de Saul

Sim, só indico filme que precisa ter estômago. Poderia ser apenas mais uma história do holocausto, mais uma das muitas que se passaram no campo de concentração em Auchwitz. Mas a maneira como foi filmado muda toda a perspectiva da obra, é incrível e ao mesmo tempo aterrorizante o ponto de vista que somos obrigados a assistir!

A grande aposta

Eu sei, demorei para assistir, mas mesmo assim indicarei, porque foi com certeza um dos melhores filmes que assisti no ano. Um filme que tinha tudo para ser um pé no saco, especialmente para quem é de humanas como eu, mas não, é eletrizante, não dá para piscar, eu tive que sentar no sofá, porque não conseguiria acompanhar todos os números, os cálculos, as reviravoltas se estivesse deitada. INCRÍVEL! E porra, que merda de mercado financeiro nós temos, hein?

Séries

Sense8

Para mim superou Stranger Things, desculpa, mas nunca me senti tão conectada a uma série assim. A ideia, que eu ainda não entendi por completo, é tão maluca, mas faz tanto sentido ao mesmo tempo e esse nome combina tanto, porque é uma série mega sensorial, a gente se funde à história, chora, sorri, dança, canta….Foda! Sem falar em todo a questão de preconceito, rótulos e superficialidade mundial etc etc etc.

Gilmore Girls

Eu nunca tinha assistido quando jovem, então em um ano tive que ver as sete temporadas para conseguir entender a nova produzida pelo Netflix. Só tenho uma coisa a dizer: Cadê a próxima temporada?

Narcos

Apesar de todas as críticas à veracidade dos fatos e ao puxa-saquismo dos americanos, a série é muito bem produzida e ponto final. A história é envolvente, tem momentos em que torcemos para os vilões (o que para mim representa roteiro muito bom), e eu morro de orgulho do Wagner Moura. Podem falar qualquer coisa, mas se é difícil alcançar fama internacional como ator ou atriz, imagina para um brasileiro. Tem que ter muito talento e coragem!

Extra: Top of the Lake

Essa é uma série produzida na Nova Zelândia, indicação de 2015 de um amigo, mas que só consegui finalizar este ano. E acreditem, vale a pena demais! A história é de uma criança que é estuprada e desaparece. Um assunto muito delicado para o país, que tem altos índices de violência doméstica. O roteiro é surpreendente, você só consegue parar quando acaba e o final é chocante. Fora as paisagens, que me dão uma saudade danada.

Viagens

Salvador-BA

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A viagem na verdade foi para Morro de São Paulo, que eu amei, é um pedacinho do paraíso. Mas eu me senti em casa em Salvador, a comida, a cultura, a música…Com exceção dos trambiqueiros que querem te tirar dinheiro de todas as formas, a cidade é acolhedora vi-se? Pura energia positiva!

Brumadinho-MG (Inhotim)

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Rodamos 1.500km por 9 cidades da Estrada Real. Apesar de lindo, a história do Brasil é muito triste. Pensar que até pouco tempo fomos explorados de tantas formas, especialmente como seres-humanos. E já que estava pelas bandas de lá, resolvemos visitar Inhotim e estou até agora de queixo caído. Dá para ir todos os anos da vida e ainda sim não ser capaz de visitar cada cantinho desse museu vivo, né?

Capitólio-MG

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Porque acampei, porque choveu horrores, porque fez um sol lindo no último dia, porque a Serra da Canastra é impressionante, porque é bizarro pensar que a lagoa de Capitólio e todos aqueles cânions não são naturais e que centenas de cidades deixaram de existir para a construção de uma hidrelétrica. Um série de motivos faz Capitólio fascinante. E não deixa de ser lindo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A caixa preta de Vilém Flusser

Após a morte da família em campos de concentração, o filósofo tcheco Vilém Flusser e a esposa Edith Barth fugiram para o Brasil por volta de 1941. Foi aqui que Flusser construiu sua carreira como filósofo e em 1983 lançou, primeiro em alemão, o livro Für eine Philosophie der Fotografie. O livreto com menos de 80 páginas na versão em português Filosofia da Caixa Preta, traduzido pelo próprio Flusser anos mais tarde, pretende dar base a uma futura filosofia sobre a fotografia.

O autor discorre sobre a relação aparelho-operador, mostrando que a diferença entre ferramenta e aparelho é que a ferramenta estava a serviço do operador, já o aparelho é o controlador do homem, no caso, o fotógrafo ou cinegrafista. “A competência do aparelho fotográfico deve ser superior em número de fotografias à competência do fotógrafo que o manipula”. Isso porque, segundo Flusser, ferramenta é pré-industrial e aparelho pós.

Essa colocação histórica traz uma outra mudança de conceito, que é a do funcionário. Para Flusser, o fotógrafo não é trabalhador/funcionário, porque ele não trabalha, mas sim brinca com o aparelho. Diante das limitações que esse processo tão complexo chamado Caixa Preta, uma metáfora à câmera fotográfica, o homem brinca como se fosse um jogo de xadrez em busca de novas possibilidades, um jogo contra o próprio aparelho. “Pelo domínio do input e output, o fotógrafo domina o aparelho, mas pela ignorância dos processos no interior da caixa, é por ele dominado”.

A dominação e limitação do fotógrafo continua sendo desenvolvida ao longo do livro, mas além disso, Flusser discute a fotografia em si, não valiosa fisicamente, por se tratar apenas de um papel barato e de fácil distribuição, mas o valor da informação contida nela. E nesse valor estão embutidas duas intenções, a do fotógrafo, que no ato de fotografar escolhe o alvo e o enquadramento, sempre lutando contra a segunda intenção, que é da própria câmera fotográfica. A intenção da câmera, ou dos programadores, é de que o aparelho continue se aperfeiçoando.

Por fim, Flusser conclui que é necessário uma filosofia da fotografia, porque o homem está refém do aparelho. Algo parecido com o que acontece em Avengers: Age of Ultron, em que a máquina construída pelo homem para ter autonomia leva à inversão dos papéis entre máquina-homem. Para Flusser, isso só irá mudar quando o operador jogar contra o aparelho, ele diz: “Toda filosofia trata, em última análise, do problema da liberdade.”

As lágrimas que deixei cair pelos aeroportos e ninguém viu

Assim como os terminais de ônibus, os aeroportos são um local de encontros e despedidas. Aquela miscelânea de felicidade e tristeza. No meu caso, sempre foram locais de alegria, um ponto de partida e ansiedade para os lugares maravilhosos que estava prestes a conhecer. Mas isso mudou, o anonimato dos aeroportos me abraçou e me deixou chorar.

Sou uma pessoa dura, chorar de emoção é permitido, mas o choro da dor eu estrangulo. Fica amarrado pelo pescoço na garganta. As lágrimas se debatem querendo sair, mas eu as impeço. Quero ser forte!

Há seis meses quando abracei os meus para viver fora, eu queria só sentir alegria, afinal eu estava indo realizar um sonho. Me julguei ao sentir aquele aperto no peito pela dor, mas, ah! o anonimato é tão belo. As lágrimas caíram na longa espera do embarque e me permito pensar que foram invisíveis. Ninguém as viu.

Quatro meses depois eu tinha que progressir com os planos da viagem e me mudar para a capital da Nova Zelandia. Era apenas 1h de avião de Auckland e eu veria meus amigos em 8 semanas, antes de voltar para o Brasil. Eu estava bem, feliz, mas ao me deparar sozinha naquele saguão, o choro veio, impiedoso.

No derradeiro adeus eu esperava chorar, mas a defensiva não me deixou. Olhar nos olhos marejados de um amigo tirou meu coração pela boca e o esmagou com os cinco dedos de uma palma aberta. E, de novo, o aeroporto estava lá, esperando para me abraçar. Elas vieram rápidas, rolaram pelo rosto, quentes, salgadas, doidas… Depois veio o alívio, olhei para o lado, ninguém me olhava, eu estava invisível e isso era maravilhoso.

O Brasil e toda sua representatividade

O homem não vive muito, acho que mesmo se chegarmos aos 100 será insuficiente para vermos e aprendermos tudo o que planejamos. Por isso acredito ser tão importante manter os ouvidos sempre atentos e extrairmos o máximo da experiência alheia. Acontece que nada substitui o aprendizado em foco, ir à fonte primária, ver com os próprios olhos. Cá estou “morando fora” e aquela história de que as pessoas não sabem onde fica o Brasil, que língua falamos ou que pensam que há macacos por toda parte ficou no passado, se é que um dia existiu.

Lógico, o recorte que tenho é limitado, um país em que toda população é metade do número de pessoas que usam o Metrô e a CPTM por dia em São Paulo. Sim, essa é a Nova Zelândia. Mas ao mesmo tempo é uma amostra interessante, considerando que estamos tão distante do Brasil. Desde que cheguei aqui tenho me surpreendido com o conhecimento que as pessoas têm do nosso país.

Não lembro exatamente qual foi o primeiro episódio, mas trabalhava como garçonete em festas de casamentos e não importava qual fosse a origem dos noivos (iraquianos, kiwis, australianos, indianos…), havia sempre alguém que ao perceber o sotaque, me perguntava de onde eu era e subsequentemente a minha resposta já dizia um claro “Obrigado” ou “Oi, tudo bem?”. Se tornou recorrente, mas eu não deixava de me surpreender. Em uma das festas, a pessoa fez questão de ensinar “Obrigado” para todos os convidados da mesa que eu estava responsável. Isso me encheu de alegria! Mas tenho que confessar que já ouvi “Gracías” também. Mas não tem como culpá-los, em um continente que boa parte dos países falam espanhol, é sim difícil desassociar o brasileiro desse contigente.

Por causa da Copa do Mundo, muitos já estiveram no Brasil/estão com passagem comprada/sonham em ir. Depois do “Oi , tudo bem?”. A pergunta mais comum é “Você é de São Paulo?”, porque sim, eles sabem que é uma das maiores cidades do Brasil. E isso também me surpreende, porque sempre considerei o Rio como a cidade mais famosa. Não sei por quê, mas foram poucos que me perguntaram de lá. Será que porque eles nunca conseguem pronunciar RIO? Talvez.

Poderia contar aqui qualquer uma das várias histórias de bar de franceses, ingleses e kiwis que já foram para Florianópolis, Recife, São Paulo ou Rio. Mas vou escolher uma que aconteceu fora do bar. Eu estava em uma bairro de Wellington, onde eu iria fazer uma entrevista de emprego, e como cheguei muito cedo decidi entrar em um sebo. Como sempre, o sotaque sempre nos entrega e o dono, de uns 80 anos, me disse que estava indo para o Brasil em novembro, mas ele não lembrava o nome da cidade. Já estava achando que ele tinha dito aquilo só para puxar papo, mas não, ele pegou as passagens e falou com aquele sotaque bem arrastado: JOAU PESSÓA. O sorriso largo foi inevitável!

E um dos motivos pelo qual o Brasil se tornou tão conhecido acredito que não seja apenas pelas competições esportivas internacionais, mas também porque estamos bem representados nas artes. Foi aqui que assisti “The Salt of the Earth”, um documentário que conta a história do fotógrafo Sebastião Salgado. Sala lotada e, pelas conversas de corredor que ouvi, percebi que as pessoas o conheciam. E imaginem a minha alegria ao ouvir o sotaque capixaba do pai do Sebastião com a legenda em inglês. Era a minha língua sendo traduzida para tantas pessoas e não o oposto.

Outro filme que também teve sala cheia foi Citizen Four, que conta a história de Edward Snowden. O foco das escutas dos EUA era o Brasil e jornalistas de O Globo tiveram grande destaque na publicação de matérias relacionadas ao esquema de espionagem. Ah, ainda falando sobre cinema, mas de uma pessoa já me perguntou se eu conheço “Cidade de Deus”. E nesse último fim de semana, fui à exposição “50 grandes fotografias da National Geographic” e, claro, também estávamos lá. Era apenas uma fotografia dos botos cor de rosa da Amazônia, mas além disso, havia um vídeo de entrevista com o fotógrafo impressionado com a existência de um golfinho de água doce.

Então sim, aquela história de que ninguém conhece o Brasil é só história mesmo. A questão é outra, eles nos conhecem e são aterrorizados pelas notícias de violência. Há um desejo enorme de ir, mas um receio de ser morto na esquina. Eu que nunca fui assaltada, sei que por sorte, faço questão de incentivá-los, com a consciência que mais tarde eles podem me culpar por terem sido assaltados. Felizmente, ignorância não é mais um problema, mas, infelizmente, a realidade ainda é.

Onde nascem os relatos inspiradores de intercâmbio?

Nossas opiniões mudam todos os dias e o prisma do tempo é que nos motiva a acordar e discordar de nós mesmos e do outro. Quando estava no Brasil e ouvia os muitos amigos e colegas (e até anônimos) falando ou escrevendo sobre a experiência de morar em outro País sempre me pareceu muito positivo, tanto, que parecia que lá de fora não havia desconforto e que a única fraqueza era a saudade, mas nada do que ocupar a mente com as mil novidades do dia-a-dia não resolvesse, diziam.

Acontece que essas pessoas estavam lá no futuro fazendo um balanço, selecionando as palavras e – por que não? – rememorando o melhor daquela experiência. Elas estavam certas em tudo o que falavam: aprender um novo idioma, conhecer novos lugares e novas culturas, fazer novos amigos que da noite para o dia se tornam quase irmãos, aprender a se virar sozinho (mesmo e não a alguns poucos quilômetros de um abraço de quem te conhece uma vida inteira) é maravilhoso, mas também atemorizante. Sair da zona de conforto já é um grande desafio que expande horizontes e fora do círculo protegido descobrimos fraquezas que nem sabíamos que existiam ou finalmente travamos batalhas que tentávamos evitar. E mais do que isso, é preciso lutar durante esse percurso para não se enjaular no próprio medo e, assim, criar novos muros.

Estar exposto e desconfortável e ao mesmo tempo grato de poder finalmente colocar os pontos nos Is consigo mesmo. Perceber que está tudo bem se não conseguir responder todas suas questões existenciais. Afinal, os filósofos ainda estão tentando. Aprender que sucesso é muito relativo e nem está relacionado com felicidade. Deixar que a inércia exerça sua física de vez em quando e não sentir culpa por isso. Viver, simplesmente. Morar fora é uma das formas de te obrigar olhar para dentro e não é fácil como os relatos de viagens que ouvimos e lemos por aí. Mas, depois com uma certa distância da solidão e do medo de encarar a si mesmo, vem a certeza de quão incrível foi. É aí que os textos de memórias inspiradores nascem.

Meta-cinema de Dziga Vertov

Dziga Vertov mudou a maneira de fazer cinema, sobretudo, o cinema documentário. “Um homem com uma câmera” de 1929 é um filme que mostra como é fazer cinema, uma espécie de por trás das câmeras.

Os efeitos especiais feitos sem os recursos tecnológicos que existem hoje são revelados ao público. Filma, imprime, corta, monta, refilma. Não só Dziga registrou a história da evolução da fotofilmagem, como também, a História com h maiúsculo. O filme é um registro do cotidiano de Moscou, na época, capital da União Soviética.

Há um enaltecimento da era industrial russa. Máquinas das fábricas de costura, automóveis e bondes causando trânsito já na década de 1920, grandes tanques de água, mineraria, ou seja, vários elementos exaltando a prosperidade econômica da União Soviética.

Como metáfora para comprovar que o filme nada mais é do que um retrato da realidade, Vertov utiliza o olho humano como representação do olho da câmera fotográfica. As imagens imitam o movimento dos olhos de abrir e fechar, como persianas, e também a instabilidade e confusão do globo ocular em determinadas situações. As figuras de linguagem, inclusive com a sonorização, transformam o audiovisual em ensaio, apresentando uma tese de como refazer o cinema.