A metodologia do passaralho

Essa semana uma colega da faculdade levantou uma questão que parecia estar angustiando a todos, quase que secretamente. E aí recém-formados pela faculdade mais conceituada de jornalismo da América Latina, estão todos felizes e empregados? Para minha surpresa, não. Muitos estão desempregados ou trabalhando fora da área. E os que estão trabalhando, não veem perspectiva de crescimento. Suspirei aliviada porque fui efetivada pouco antes de me formar e aprendo a cada dia com situações que exigem de mim responsabilidade dobrada agora como jornalista de verdade. Mas não é por isso que me senti menos angustiada com toda essa triste realidade.

“O jornalismo está mudando” é um conceito ensinado há pelo menos uma década nas salas de aula. Afinal a internet não surgiu ontem, não é mesmo? Mas a incerteza de para onde estamos indo e como vamos pagar as contas até chegarmos em algum lugar, isso sim preocupa meus colegas. Fora essa sensação de impotência, como  meros espectadores desse movimento.

Apesar de acompanhar de perto, com depoimentos de amigos inclusive, as demissões em massa nas grandes redações (Folha, Estadão, Trip, Valor… e não são só os impressos, Record também demitiu e Rede TV ficou meses sem pagar os funcionários) me assustam. É óbvio que todas essas empresas são companhias assim como as de qualquer outro ramo de negócios. Nós, jornalismo, não somos blindados as alterações da economia, mas devíamos estar de alguma forma pensando em um novo jornalismo. Isso porque a fase de descoberta dos novos meios de comunicação já passou, não podemos mais usar a internet como vilão do jornalismo. Mesmo porque não é, a minha geração não saberia escrever uma boa reportagem sem o uso dessa ferramenta. Somos dos anos 1990 e já estamos formados lutando nesse tal de mercado.

Além disso, hoje lembrei do discurso de formatura de uma de nossas professoras, a Jurema Brasil. Ela queria que enxergássemos que somos trabalhadores, assim como os professores, os bancários,  os taxistas, somos uma classe. Mas não nos comportamos como uma. No discurso dela, lembro que disse que nós não estamos sendo menos profissionais por sairmos no nosso horário, por termos folgas aos finais de semana, por termos férias, por exigirmos melhores salários, por cobrarmos horas extras. O discurso dela chocou, porque somos jovens e aprendemos que jornalismo é varar a noite no fechamento, é fazer plantão em todos os feriados, é ganhar pouco, é trabalhar em um lugar e fazer freela para mais dez, é ser demitido e justificar isso pela falta de publicidade. E não reclamar! Afinal, não pensamos como classe trabalhadora. Jurema Brasil, mais uma vez você estava certa!

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2 thoughts on “A metodologia do passaralho

  1. Jurema Brasil Xavier diz:

    Jessica, que bom que meu discurso não caiu no vazio. Concordo com você estamos em um momento em que a comunicação cresce, se amplia, mas…, vocês estão cada vez mais sendo explorados ou deixando de conseguir espaço no mercado de trabalho. Apenas relembrei a vocês que sim, podemos vestir a camisa da empresa, mas não devemos “tatua-la” como se fosse a única finalidade de nossa vida. Precisamos de união e consciência de classe para que alguma coisa mude.
    Ótimo tema! adorei!!!!

  2. Leilóca diz:

    Sabe, queria poder dizer que me formei em Jornalismo e sou feliz, mas não sou. Minha graduação aconteceu em um estado onde estagiários não podem atuar dentro de grandes veículos da mídia de forma remunerada, minha experiência durante os anos acadêmicos foi apenas em assessoria de imprensa e agora colho os frutos dessa “repressão”, três anos de formada e até hoje não consegui um job próximo a uma redação que fosse. Fiz freelas para revistas, mas nada se compara ao dia a dia em uma redação – imagino. Durante os anos de graduação pude passar alguns dias em redações em estágios de observação, que de observador eu não tinha nada. Me senti usada, trabalhando para grandes instituições a troco de nem ao menos um “obrigada”. É, a vida de Jornalista é sofrida, principalmente dos desempregados, que veem seus sonhos escorrendo pelas suas mãos a cada ano que passam, longe das redações, sejam elas onlines ou offlines, quer dizer, redação offline nem existe mais 🙂 Boa sorte na sua jornada, Jeh! E se tiver emprego pra me indicar avisa, eu corro pra SP! 😀

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