A sensação da palavra

“Por afeição e aflição” diria o escritor espanhol Gonzalo Hidalgo Bayal às razões pelas quais ele escreve. Sou espelho dessa visão, não deveria existir escrita na neutralidade. Talvez esse seja o motivo pelo qual ainda não sei bem porque escolhi essa profissão que me obriga a escrever nos dias de hiato de sensações.

Achar que a obrigatoriedade da escrita proporcionaria os sentimentos de raiva – como quando escrevia cartas de amor guardadas na caixa de sapato – ou de extrema felicidade – quando invadíamos os dias seguintes do diário, porque apenas uma página era insuficiente – foi ilusão. O sentimento é a priori ao ato de escrever.

Telefonemas, e-mails, 140 caracteres, agências de notícias me distanciam do ato de escrever pelas razões de Bayal. O texto jornalístico transforma-se em versões de releases destruindo, assim, o romantismo de encontrar um lead que fuja do senso comum ou um título que arranque um peso que até então dormia com você diariamente.
No entanto, mesmo diante da queda do romantismo na escrita, estou apaixonada. Numa fuga impensada cai nos braços da linguagem visual, achando que assim eu escaparia dessa escravidão da escrita e poderia mais uma vez deixar meus dedos fluírem de acordo com minhas aflições e afeições. E a quimera mais uma vez se fez presente.

A preposição foi mal aplicada. Não se trata da escravidão da escrita e, sim, pela escrita. Mesmo na televisão, a escrita chega primeiro e não bastando chega ao estilo de Guimarães Rosa – quase ininteligível na língua pensada, mas escancarada na língua falada. Na narração da imagem temos que escrever como nas fábulas infantis: simples, claro, conciso e, o mais importante, instigante.

No entanto, mesmo diante da desilusão me apaixono porque o envolvimento a priori na televisão é inevitável. Ouvimos histórias, nos emocionamos ou nos revoltamos para assim expressar em letras àquilo que alguém recontará em palavras.

Quando Bernard Shaw diz que o talento é 10% de inspiração e 90% de transpiração ele não explícita a ordem. A minha musa é a realidade. A minha escrita são minhas sensações da realidade. É aquilo que minha musa quer que eu acredite se disfarçando de Mentor.

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