A sala espelhada

As paredes não apoiam móveis ou quadros como as tradicionais, nelas só se vê espelhos e barras. Um rádio também fica pregado junto a ela, geralmente no canto direito – bons tempos em que no lugar do rádio havia um belo piano. Fora a parede dos espelhos e a do rádio, têm outras duas que suportam grandes janelas, que servem para confortar os curiosos. Um aconchego cheio de nada.

O chão vem da natureza: madeira ou borracha. Esses materiais se justificam pelos verbos proteger e deslizar, já que a madeira e a borracha evitam os tombos e suavizam os movimentos. No chão os corpos quase nus se esticam, rolam, saltam, deitam. É quase inacreditável o que os personagens dessa sala podem fazer. São treinados exaustivamente para isso.

Já foi ambiente de filmes de terror, de comédias, mas, geralmente, os dramas estão nessas salas. Talvez seja a coisa dos espelhos, como se não fosse possível fugir de si mesmo. Os cineastas gostam mais do ângulo de cima para baixo, uma forma de tornar aquele vazio mais profundo. Eles costumam muito dar aquele mergulho com a câmera, quase vertiginoso.

Para nós, bailarinas, a sala de dança é apenas uma extensão do palco. Todo esse vazio é um pouco do que sentimos na frente dos refletores, que embaçam nossa vista a ponto de não vermos nossos familiares na plateia. Deve ser proposital, seria muito pior ver o rosto de todos eles. A dança nos revela e é impossível se esconder diante dos espelhos. Lá, nós somos.

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